O Barroso é, há séculos, um baldio — terra comunitária gerida coletivamente pelas populações que nela vivem, sem dono privado, sustentada por regras de uso, cuidado e respeito, transmitidas de geração em geração. Essa gestão comunal do território, essa relação de proximidade com a terra e com os ritmos da natureza é o que levou a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) a reconhecer o Barroso, em 2018, como Património Agrícola Mundial — um dos poucos lugares no mundo distinguidos por manter, viva e em funcionamento, uma forma de agricultura e de organização social capaz de durar séculos sem esgotar a terra que a sustenta.

É também por isso que o Barroso se tornou, nos últimos anos, o palco onde embatem duas narrativas incompatíveis sobre o que significa “sustentabilidade”. De um lado, a narrativa do progresso tecnológico e materialista, que apresenta a abertura da maior mina a céu aberto de extração de lítio, com buracos de centenas de hectares e dezenas de metros de profundidade, como preço necessário e inescapável de uma “transição energética” decidida longe do Barroso, para “benefícios” que também se realizam longe do Barroso (i.e. a construção de 500 mil baterias de carro por ano, e lucros associados). 

Do outro, a narrativa secular da ligação à terra, do tempo lento da Natureza, da proximidade entre as pessoas e entre as pessoas e o que as sustenta — uma noção de sustentabilidade que não se mede em toneladas extraídas, mas em biodiversidade e séculos de continuidade. O Barroso é hoje, à escala nacional e internacional, um dos lugares onde esta disputa se torna mais nítida e mais urgente.

É por isso que é tão importante defender o Barroso: porque o se passar ali abrirá um precedente para todo o território.

E foi nesta luta que se realizou este ano o acampamento anual: inteiramente auto-organizado, prova de que o movimento tem hoje a maturidade coletiva para erguer, sozinho, um espaço de encontro, formação e luta à escala que este já atinge. As entradas mantiveram-se gratuitas, por donativo, garantindo que a participação nunca seja filtrada pela capacidade económica de cada pessoa. Conseguiu equilibrar uma agenda forte — concertos, workshops e conversas de grande qualidade, com tradução simultânea em várias línguas para acolher quem chega de fora — com tempo verdadeiro para desfrutar do espaço, da aldeia e dos encontros que ali se querem construir – porque a luta também é sentir aquilo porque nos batemos, e se sustenta na alegria e na proximidade entre quem a faz.

Entre os momentos mais significativos deste acampamento estiveram pequenas ações diretas e de afirmação de princípio e valores. Por exemplo na identificação de elementos de grupos neo-fascistas em Portugal (ligados inclusive ao assassínio de Alcindo Monteiro) e o seu muy estruturado, coletivo, pacífico e assertivo convite a abandonar o recinto. Ou a colocação de plástico preto a cobrir câmaras de filmagem que apontavam ao espaço público sem qualquer autorização. Foram gestos pequenos em escala, mas grandes em significado: um passo concreto de afirmação de que o espaço comum não está disponível nem para a intolerância nem para vigilância não consentida. Foram também uma lição — sobre estratégia, princípios, limites e o que significa agir coletivamente — que fica para o movimento levar consigo para os tempos que se aproximam e que nos exigirão coragem, argumentos, união e uma capacidade inabalável de resistir.

Mas talvez o traço mais importante deste acampamento tenha sido a forma como conseguiu ligar a luta do Barroso a algo maior do que o baldio em si. O que aqui se defende — o direito de uma comunidade a decidir sobre a sua terra, uma forma de vida que não sacrifica o território ao lucro de curto prazo, uma ideia de futuro que não passa por esgotar e destruir o que nos resta — é uma luta que ultrapassa fronteiras e ultrapassa este vale. O acampamento deste ano tornou essa ligação visível e sentida, e é nessa ligação que reside o que o Barroso ainda se pode tornar: não apenas o símbolo de uma resistência local, mas um ponto de encontro e de força para todas as lutas que, por todo o lado, insistem em que a terra não está à venda, e que um futuro sustentável não é um que destrói os ecossistemas porque “tem de ser”.

O futuro, e a nossa estratégia para nele entrarmos, pode ser diferente.

Para isso, o caminho está cheio de perguntas difíceis: Se abrirmos a mina no Barroso, o que perdemos? Que sinal enviamos? Quantas outras minas abrirão depois (porque o lítio ficou mais barato e acessível, porque são necessários mais -tantos- materiais para fazer carros elétricos, porque continuaria a alimentar uma narrativa de progresso ligado apenas à tecnologia – como smartcities, IoT, e toda a digitalização da vida)? E se não abrirmos a mina no Barroso, onde vamos buscar o lítio? A outras comunidades que terão então a mesma luta? Ou, pior, a comunidades impossibilitadas de resistir?… Ou estaremos a fazer a pergunta errada? E se a pergunta for: de quanto lítio (e outros materiais) precisamos? E para quê? E quem decide isso em democracia? E como? E se a resposta for (é tantas vezes) “para manter e expandir o nosso estilo de vida, de acesso contínuo a smartphones, PCs, carros elétricos e todo o materialismo da modernidade”? E se esse estilo de vida tão “normal” e a que tanto nos apegamos for incompatível com a Natureza, devido à squantidade de destruição associada necessária para o manter? Como equilibramos um estilo de vida saudável, confortável, seguro e com olhos no futuro, com um reajuste dos nossos hábitos de produção e consumo?

Se tentaste responder a todas as questões e estás confus@, não estás sozinh@. Junta-te á reflexão, ela trar-te-á à luta. As respostas não são fáceis, e todos os que responderem que são – estão a mentir. 

O Barroso foi um baldio secular. É, hoje, uma linha da frente. Física, narrativa, central. O que o Barroso pode ainda tornar-se depende de quantas mãos se juntarem à sua defesa, e à busca das perguntas e das respostas certas que a situação em que se encontra exige.

A luta por um futuro verdadeiramente sustentável não podia de nascer senão de gente corajosa, de uma terra verde, de um rio lindo e de uma gestão comum. E não poderá ser levada a cabo a não ser por ti.

Rede BRAVA