A utilização de ferramentas digitais, como o Instagram, IA, Google, etc, por parte de movimentos de defesa territorial que se batem contra a mesma infraestrutura que alimenta essas ferramentas (como mega parques solares, eólicos, centros de dados, minas, etc) é “legitima”?

E essa “legitimidade” de decidir que ferramentas ou “armas” são “legitimas” numa luta desigual contra ameaças existenciais, é de quem?

Esta questão ganha um espaço especialmente importante dentro da diversidade de táticas em contexto de defesa territorial em Portugal — contra a mineração de lítio ou o agronegócio intensivo por exemplo. O uso destas ferramentas por parte de movimentos com poucos recursos (humanos, financeiros, etc) representa um verdadeiro incremento na sua capacidade de montar narrativas e amplificar a sua voz, mas corre o risco de ser visto como “hipócrita” e de descredibilizar os movimentos.

A utilização de algoritmos e AI surgem então como uma forma de autodefesa digital contra o cerco das corporações, exercendo o seu direito à sabotagem simbólica e à proteção da vida – um pouco na analogia da utilização de armas para buscar a paz perante um adversário ultra violento? Ou redundam na validação das plataformas e toda a base industrial, digital, extrativista que as permite, afastando pessoas e movimentos de caminhos de busca de modos alternativos de comunicar e lutar?

Esta questão da legitimidade de usar o “sistema” para o combater, ou de, por exemplo, escalar a resistência para formas de ação direta e violência defensiva contra a maquinaria pesada, não se deve submeter à moralidade de quem observa o conflito a partir da cidade. A autodeterminação dos meios de luta dita que é a comunidade que sente a ameaça à sua água e ao seu solo quem decide a fronteira entre a diplomacia e a fricção necessária. Se a corporação utiliza a lei e a tecnologia como armas de expropriação, a resistência rural parece ter o direito de reivindicar a soberania de definir os seus próprios termos de combate, recusando-se a ser um figurante passivo num plano de negócios desenhado em escritórios distantes.

Fica, no entanto, a tensão por resolver sobre o que constitui uma arma legítima no Portugal contemporâneo: quem tem a autoridade para validar o uso de meios que o Estado classifica como “violência” quando a própria sobrevivência do ecossistema está em jogo? Se o algoritmo é uma infraestrutura do capital, pode ele ser verdadeiramente uma ferramenta de libertação, ou é apenas uma armadilha que dita quem pode falar? No final, quem decide se o recurso à força — seja ela física contra a máquina ou viral contra a marca — é um ato de agressão ou o exercício último da dignidade territorial?

Junta‑te à BRAVA.
Porque mudar o sistema não é esperar por ele — é construir outro.