INOVAR PARA CONSUMIR MAIS- O PARADOXO QUE NINGUÉM QUER DISCUTIR
As energias renováveis não substituem os combustíveis fósseis — somam-se a eles; os carros elétricos não eliminam os de combustão — coexistem; e novos materiais não substituem os antigos — acumulam-se. Num sistema orientado para o crescimento, a inovação não reduz o consumo total — expande-o.
Muitas vezes, no debate sobre energia e produção, surge a ideia de que um material (ex: lítio) está a ser substituído por outro “melhor” (ex: sílica ou sódio) que vai resolver os problemas de produção de energia e, logo, amenizar problemas ambientais e extrativistas.
Infelizmente, como em todos os mercados obrigados a um crescimento constante, o lítio não está (como não está nenhum mineral, nem nenhuma fonte energética) a ser “expulso” do mercado, mas sim a ganhar alternativas e complementos para diferentes usos.
O sódio poderá ocupar nichos específicos, como armazenamento de energia ou veículos leves, e o silício melhora o desempenho das baterias de lítio, mas nenhum destes materiais elimina o outro.
O mesmo padrão repete-se noutros setores: as energias renováveis não substituem os combustíveis fósseis — somam-se a eles; os carros elétricos não eliminam os de combustão — coexistem; e novos materiais não substituem os antigos — acumulam-se.
Num sistema orientado para o crescimento, a inovação não reduz o consumo total — expande-o.
Esta ideia explica-se desde o século XIX com o Paradoxo de Jevons (proposto por William Stanley Jevons): tornar uma tecnologia mais eficiente no uso de um recurso não significa reduzir o seu consumo total. Pelo contrário, ao ficar mais eficiente, essa tecnologia tende a tornar-se mais barata e acessível, o que leva a que seja mais utilizada. Como resultado, o consumo global desse recurso (e de outros, agora também utilizados) pode até aumentar, em vez de diminuir.
Sem questionar os limites do crescimento (do PIB e do consumo), nem os materiais nem as energias se substituem – só se acumulam.
E é o que vemos e vamos continuar a ver com todas as fontes de energia, e todos os recursos materiais, e todas as legislações europeias tipo Critical Raw Materials Act (CRMA) que facilitam a extração de recursos em solo europeu, atropelando procedimentos democráticos e de salvaguarda ecológica, porque o que interessa é continuar a crescer. Embora o CRMA seja apresentado como essencial para garantir matérias-primas necessárias à transição verde e digital, muitos desses recursos — como lítio, cobre ou níquel — são também fundamentais para a Indústria da Defesa/armamento, e cerca de 26 dos 34 materiais críticos têm uso militar.
O problema é continuarmos a legitimar um sistema que se canibaliza para sobreviver — cada vez mais rápido — enquanto se mascara de solução através de greenwashings, carbon conscious, eco-friendly e de cimeiras como a COP27, onde se promete transformação sem nunca questionar o crescimento que está na raiz do problema.
Devemos questionar o modelo que subjaz toda esta construção e se não nos estará a atirar para um buraco negro ecológico, geopolítico, social, económico e, finalmente, civilizacional?
Se sim, como? Com quem? A partir de que escala? Com que recursos? Com que estratégia?
Se não, que alternativa?
Rede BRAVA


