Foram três dias de encontros, de aprendizagem de um impressionante murro no estômago (para quem não é daquela área), mas também de inspiração. 

Três dias de conversas honestas, de reflexões sobre a luta e como a levar a cabo, sobre as limitações de territórios despovoados, sobre enfrentar grandes investimentos, grandes infraestruturas, e sobre o que “deixar fazer” pode significar. 

Melides, Sines e todo o Litoral Alentejano estão sobre intensa pressão de “desenvolvimento”. Um desenvolvimento, entenda-se, de perpetuação de um sistema altamente distópico e destrutivo, energívoro, cada vez mais militarizado. Um desenvolvimento totalmente desenraizado do seu território, das pessoas que o habitam, e de qualquer conversa ou alternativa que consiga pensar Sines para além daquilo que já “não poderá deixar de ser”: um enorme complexo militar no nosso país (apadrinhado pelos americanos, que multiplicará por 3x o atual porto de Sines – assumida porta de entrada de tanques e outras forças terrestres no continente europeu) e uma enorme concentração de sistemas-base da distopia tecnológica que galopa sem contraponto nem consentimento em Portugal.

  • fábricas gigantes de baterias á espera do esventrar das nossas serras;
  • milhares de habitações compradas por multinacionais (para albergar trabalhadores estrangeiros, muitas vezes explorados, que virão construir e operar as infraestruturas, “criando emprego sem empregar ninguém” e tornando Sines tão cara de viver quanto Lisboa (!);
  • um mega centro de dados que há de consumir 20% da eletricidade do país, e até 60% daquela aqui gerada e dita renovável;
  • kms e kms de tubos, refinarias, centrais de gás, e todo o tipo de infraestrutura cuja materialização e investimentos nos asseguram, sem margem de dúvida, que tudo é para continuar como está, que não há vislumbre nem intenção de procurar alternativas, nem de assegurar a segurança, saúde e qualidade de vida das populações locais. 

Em Sines, no corajoso encontro do TAMLA, a trama revela-se: a destruição do rural português, e o absoluto desrespeito pelas comunidades, é feita em nome de um modelo – ali tão presente – que precisa de toda a área, água, solos e energia que conseguir obter. Continuaremos a destruir o montado, as praias, as serras, as florestas, e a coesão social (começando na habitação, terminando na democracia) para que multinacionais estrangeiras possam lucrar com projetos bélicos, extrativistas e altamente destrutivos.

Ali, começou-se a pensar noutras formas de dizer não: mais assertivas, mais corajosas, mais conectadas ao que realmente interessa.